La Barca...

Há quinze anos, ela foi viajar. Para nunca mais voltar.
Foi isso que eu senti quando a minha avó paterna, Nair, morreu.
Ela sempre dizia que, se algum dia fosse internada, morreria.
Cumpriu a promessa.
Ralando laranjas para fazer doce, sentiu uma forte dor no braço. Era uma crise de angina, internaram, e na manhã seguinte veio a notícia do infarto fulminante durante a madrugada. Morreu dormindo...
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Para escrever sobre a Nair, resolvo ouvir seus boleros preferidos,
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Quando muito pequena, morávamos com minha avó, mas depois, houve uma separação de alguns anos. Lembro-me de quando ela voltou a morar em casa, eu tinha uns 5 anos. Quando pequena, eu sempre ia dormir às 20h. No dia em que ela chegou, lembro-me muito vivamente do rádio relógio marcando 1:05h na hora em que fui dormir. Nunca mais dormi antes da meia-noite. Ah, quantos Corujões assistimos juntas! Depois de fazer suas orações por horas (tinha calos nos joelhos), pois achava no fundo que, se esquecesse de alguns dos seus muitos santos de devoção, o mesmo se sentiria ofendido, ficava bordando e assistindo TV até às 4, 5 da manhã. E eu, que dividi o quarto com ela até a época de sua morte, quando eu tinha 17 anos, ficava junto acordada.
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Adorava uma intriga. Com as irmãs (elas eram em sete, ao todo), trocava cartas que normalmente eram encerradas com a frase “Queime esta carta”. Tinha personalidade tão forte que demorou muito tempo para eu perceber que era muito baixinha, tinha pouco mais de 1,50m. Foi preciso personalidade para ser uma mulher desquitada quando poucas tinham essa coragem. Lembro-me quando um padre disse, na missa, que pessoas separadas não eram exatamente bem-vindas em sua paróquia. Coitado, teve que ouvir tanta coisa na rua quando cruzou o caminho da minha avó! Por que ela era assim, tinha uma grande intimidade com a igreja, com os santos, intimidade essa que lhe dava o direito de altercar-se com seus representantes quando achava que estavam errados. Como quando quase atacou um franciscano (o santo da pobreza) que quis expulsar da igreja uma pobre mulher que pedia dinheiro...
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Fumava, sem tragar, cigarros longos – lembro-me de quando existia um cigarro chamado Ella, com florzinhas desenhadas no filtro. Não, ela não era a vovó dos biscoitinhos e dos biquinhos de tricô
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Devia ter uns 75 anos quando morreu. Como saber, se ela mentia a idade até para os médicos, e até tinha uma identidade falsa, com idade menor...? Graças a seus cremes, loções e diversas receitas caseiras, parecia ter pouco mais de 50. Suas irmãs, quando a viram no caixão, sentiram inveja de sua aparência. “Como ela está linda!”, diziam, entre lágrimas. Todas mais novas do que ela, pareciam ter pelo menos 10 anos mais.
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Durante muitos anos foi professora: junto com meu avô, seu ex-marido, que era jornalista e escritor, teve uma escola
Quanto ao meu avô, não cheguei a conhecê-lo. A personalidade forte da Nair nos afastou dele, cheguei a falar com ele por telefone, mas, quando estava marcando de ir para São Carlos visitá-lo... menos de um ano depois da minha avó, ele se foi. Em seu funeral, conversando com sua irmã, descobri que ele nunca tinha deixado de amar minha avó...
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A Nair nunca foi uma pessoa fácil. Amor e ódio às vezes se confundiam, e brigas sempre aconteciam. Mas a Nair é inesquecível, para todos que a conheceram.
Obrigada, vó.
Por me ensinar a dormir tarde, amar os livros, falar palavrões e tomar água tônica.
Obrigada por tudo.
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(e tomara que eu puxe você e chegue aos 75 com cara de 50!)
